sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Ah, esse Presidente...


“Nunca antes na história” eu fiz algo assim. Aproveito este espaço para analisarmos algumas frases do “cara”, proferidas em 2009. Luís Inácio Lula da Silva usa frases impactantes, metáforas e outras figuras de linguagem. É inegável a esperteza do presidente. O que causa dúvida é a esperteza, ou amenizando minha crítica, a lucidez dos 85% que aprovam Lula.

Seguem algumas citações:

- “Máquina pública é extraordinária, porém ineficiente.” - Ineficiência extraordinária?
- “Os empresários têm tanta obrigação de ser brasileiros e nacionalistas quanto eu.” - Claro, ser “lulista” também deve ser bom pré-requisito.
- “Se vocês não gostam de política, acham todo político ladrão, que não presta, não renunciem à política. Entrem vocês na política porque, quem sabe, o prefeito que vocês querem está dentro de vocês.” - Porém, não relutem, pois o presidente que vocês querem, claro que é Luís Inácio.
- “Nada é mais fácil do que atribuir aos outros a culpa por seus próprios problemas” - É presidente, assumir os próprios erros é difícil, melhor ficar no “não sei de nada”.
- “Quando está todo mundo no hospital, fica todo mundo mais humilde.” - Ainda bem que há males que vem para bem...
- “Eu acho que Chávez fez um gesto de gentileza. Só lamento que ele não tenha título de eleitor para votar na Dilma.” - E não é que o presidente é mesmo “amiguinho” do venezuelano.
- “A gente não tem que olhar quanto vai gastar, tem que olhar quanto a gente vai ganhar.” - A confiança do presidente é invejável, pena que ele coloca em risco 190 milhões de brasileiros.
- “Principal animal em extinção é o ser humano.” - Pois é, deve ser por isso a extinção da ética, credibilidade, comprometimento, transparência...
- “Esse negócio de Conselho de Segurança está como uma fruta madura[...] passando do ponto de colher e daqui a pouco ela cai.” - O presidente valorizou tanto uma cadeira no Conselho e agora cospe no prato?
- “O que é triste é isso, vai passando o tempo, as pessoas não falam, ficam mudas, e quando vai chegando perto das eleições as pessoas começam a preparar o discurso para campanha.” - O problema não é preparar o discurso, o grave é fazer campanha antes do tempo, e ter o cinismo de negar isso.
- “Sou amante da democracia e da liberdade de imprensa.” - Hum... preciso comentar?
- “A maior alegria que tenho é que leitores, ouvintes e telespectadores são os únicos censuradores que admito nos meios de comunicação.” - Agora está explicado a censura ao Estado. Apesar de filho do Sarney, Fernando Sarney é também leitor, ouvinte e telespectador.
- “Não acho que o papel da imprensa é fiscalizar. É informar.” - Escrevi um post sobre isto. (Confira abaixo: “Informação não fiscalizada”).
- “É preciso parar com essas mania de entender que só o presidente da República tem responsabilidade com Brasil. Os 190 milhões também têm.” - O Brasil é responsabilidade dos brasileiros, Lula tem toda razão. Mas o poder está nas mãos de poucos, a decisão é tomada por uma classe dominante. Podemos culpar os 190 milhões por isso?
- “A dona Lina é dona da sua consciência. A dona Dilma é dona de sua consciência.” - Lula da Silva é dono de sua consciência. Desta, estamos livres.
- “Eu gostaria de subir num palanque só. É difícil subir em dois. Se isso acontecer, há risco de eu não subir em nenhum.” - O ex-metalúrgico sem palanque, não é aquele ex-metalúrgico que conhecemos.
- “O eleitor destas pessoas (Sarney, Renan, Collor, Jader Baralho) é tão bom quanto ele.” - Não precisava ser tão agressivo senhor Presidente. O senhor, que é o senhor erra. O povo também comete equívocos. O problema é que os fazem na hora de votar. Mas isso é reversível.
- “Quando se chega à Presidência, a responsabilidade nas suas costa é de tal envergadura que você não tem direito de ser pequeno.” - Mas daí julgar-se acima do bem e do mal, já é um certo exagero, não?
“No próximo aniversário, eu, se Deus quiser, estarei comemorando a eleição dela [Dilma].” - O mais certo não seria estar comemorando o desenvolvimento do Brasil? A frase ficou individualista, impregnada de interesses próprios. E como ficam os “companheiros”?

As frases são tantas. Minhas indignações as sucedem.

Num recente post, comentei sobre a provável aliança entre Jesus e Judas (confira abaixo “Metaforicamente falando...”), que inclusive foi publicada na Carta do Leitor do Correio Popular, na terça-feira (28/10). Hoje, recebi uma crítica na mesma editoria do jornal, de um outro leitor. Fiquei surpresa com a repercussão e agradecida por tal. Os pontos de vistas diferentes enriquecem-nos.

As frases citadas acima me indignaram. Mas a citação noticiada hoje me decepcionou, causou-me repúdio. “A figura do chamado formador de opinião pública, que antes decidia as coisas neste país, já não decide mais[...]o povo não quer mais intermediário, este povo tem pensamento próprio”, disse o presidente num evento que reuniu catadores de lixo reciclável. A afirmação causou alvoroço, e um grupo de jornalista foi vaiado por três mil catadores.
O “cara” desmoralizou a figura do jornalista. Tal desmoralização ataca explicitamente a ética. Desmoralizar o Jornalismo é contrariar a democracia.
É assustador o nível de contradição de nosso presidente. De acordo com Lula, aqueles que antes deveriam informar, hoje não servem sequer como intermediários.
Os jornalistas têm o dever de transmitir a realidade, dar acesso à informação, que subentende a fiscalização e checagem da notícia. O Jornalismo é a ponte entre a sociedade e os poderes públicos.

O presidente está bem incomodado com a imprensa. E isto é bom sinal. Aliás, não poderia haver melhor elogio para os meios de comunicação, afinal, como citado em recente Editorial da Folha de S. Paulo: “Não haveria melhor forma de elogiar os meios de comunicação do que as indignações de tantas figuras insuspeitas.” Não sei porque, mas para mim, Lula é um tanto quanto “insuspeito”.

Já que o assunto é rádio...

Este é um vídeo que fizemos na faculdade, na disciplina de Planejamento em Jornalismo; Sou muito grata a dedicação, participação e sintonia do grupo.
O vídeo mostra nossa visita à Rádio CBN-Campinas, em entrevista com o Valter Sena.
Confiram um pouco de nosso trabalho e percebam a alegria de fazer as coisas, quando se gosta do que faz.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O encanto do Radiojornalismo


Sou amante das mesas-redondas, dos debates, discussões. São sempre construtivos e nos agregam preciosas informações e conhecimento.
Ontem participei do II Encontro de Editorialistas na Puc-Campinas, com participação de Edilson Damas da CBN-Campinas, Rodrigo Neves e Noêmia Gomes da Band News.
Na área de Jornalismo, o que mais me encanta é o rádio. Trabalho desde dos três anos neste veículo, e hoje, participando ao vivo, diariamente, tenho a certeza que encontrei meu "grande amor". Noêmia ao disse que o "rádio morde". Ela tem toda razão. Morde e o veneno cai na veia, aí não tem mais jeito.
Segundo Rodrigo Neves, a política adotada pela Rede Bandeirantes não mudou com a queda do diploma. E neste assunto Damas reforça que estamos num bom momento para reanalisar as diretrizes curriculares do curso, principalmente no que se refere ao estágio, que atualmente é proibido por lei. Ambas emissoras continuam contratando profissionais formados, afim de garantir a competência e credibilidade do veículo.
De acordo com o Diretor da Band News, há muito espaço para o Jornalismo, ainda mais numa cidade como Campinas, que tem dinamismo e “em termos de notícia, não pára nunca”. Neves destacou que a função do jornalista é “informar”, e tal afirmação me levou a pensar na polêmica envolvendo nosso presidente, na relação informação/fiscalização. Levantei este questionamento e o senhor Rodrigo ressaltou a importância da liberdade em nossa democracia, quando comparada a outros países da América Latina, porém enfatizou que ao informar, a fiscalização não é, nem deve ser desconsiderada.
A Rádio Digital em Campinas está em fase experimental desde 2005 e tem como vantagens a qualidade de som e a multiprogramação. De forma definitiva, o sinal digital deve se estabilizar daqui uns 15 anos. Isso porque, exige-se alto investimento, sem que haja massa receptora suficiente que justifique tal.
Entre os jovens a Internet é a mais abrangente. As emissoras de rádio tentam descobrir este novo público, a medida que a juventude redescobre e reaprende a radiofusão. Há necessidade de conhecer o novo ouvinte e a Internet pode ser aliada neste aspecto.
Edilson Damas assume que o radiojornalismo está sendo o último veículo a se profissionalizar. Muitos apresentadores não têm formação acadêmica, principalmente nas cidades do interior, porém, já está havendo um desmitificação neste aspecto.
Uma grande tendência é o podcast, no qual grandes redes de rádio irão vender seus conteúdos, e o ouvinte terá acesso quando desejar, é o que Damas denomina “Rádio sob demanda”. Esta seria uma forma de revitalizar o o veículo. O rádio passa a ser gerador de conteúdo, acompanhado da interatividade e convergência de mídias.
A Rádio CBN mantém um portal na Internet, e Edilson assume que é um grande desafio para emissora, pois o principal objetivo é conciliar o imediatismo do rádio com a característica instantânea da Internet, ainda um obstáculo no Jornalismo.
Neste novo cenário, a tendência é que haja um leque mais extenso de oportunidades para os jornalistas, sendo a web bastante promissora.
O interessante deste Encontro foi a participação de representantes de emissoras concorrentes. Para Damas a CBN e Band News se complementam e quem ganha com isso é o ouvinte, que tem mais opções.
Um ponto que merece destaque é o fato de o salário do profissional que trabalha com radiojornalismo ser inferior. Rodrigo Neves justifica a situação com o fato de a publicidade no rádio corresponder à apenas 4% das vinculações comercias na mídia, com arrecadação relativamente baixa. Nesta situação, nem todas as emissoras conseguem reter talento, sendo necessário uma política mais agressiva para que aconteça a retenção. O próprio Neves ressalta que “Nada sobrevive sem talento”.
Para Damas, a política salarial sofreu mudanças e hoje, na CBN a rotatividade é menor. Edilson chama atenção pelo fato de haver pisos diferentes, e sugere que isso seja debatido, afim de nivelar por alto.
Aos alunos de jornalismo e os que já atuam na profissão, Rodrigo destacou que a “ética não tem preço” e que nossa função é devolver à sociedade a oportunidade que temos de estudar numa Universidade. Noêmia Gomes ressaltou ainda que o profissional que atua no rádio é mais completo, além do veículo ser uma porta de entrada para o telejornalismo.

Sou suspeita para dizer, mas o rádio é apaixonante e desafiador, a medida que exige bom improviso, jogo de cintura e muito carisma. A receptividade do ouvinte é admirável, participam do programa com sugestões, críticas, o que cria um forte vínculo e fidelidade. No radiojornalismo, as estrelas são as notícias, porém não podemos desconsiderar jornalistas como Arnaldo Jabor e Heródoto Barbeiro, que fazem do rádio, uma mídia referencial.

Simplicidade ostentadora

Vejam como são as coisas. Ontem, tivemos uma palestra com Eduardo Lacerda, aquele que apresenta o Jornal Regional pela EPTV, aqui em Campinas. A TV, com seu efeito de real, sem dúvida é um mundo envolvente e involuntariamente, quando conhecemos alguém que diariamente está na "telinha", o simulacro torna realidade e a vontade é registrar o momento com uma foto. Com Eduardo não foi diferente. Todos, aliás "todas", ao fim do debate ligaram as câmeras e abriram aquele belo sorriso. Comigo não foi diferente.
Isso fez lembrar-me de um episódio curioso. Uma vez recebemos na Rádio uma ouvinte assídua do Programa do Bambuzinho. Nesta situação os papéis se inverteram e eu confesso que foi uma grande surpresa. A dona Mercedes queria tirar um foto comigo. Fiquei contente, pois foi uma forma de expressar o carinho e também reconhecimento de nosso trabalho.
Mas a questão não é está. O que mais me chamou atenção foi a simplicidade da ouvinte. Estamos acostumados com máquinas fotográficas digitais, e neste caso estavamos desprovidas de tal tecnologia. E por incrível que pareça, o gosto de uma câmera analógica é bem diferente. Não vimos a foto na hora, o que acabou criando uma certa expectativa. Melhor que isso, a dona Mercedes nos deu a honra de recebê-la novamente, afinal tinha que nos mostrar como ficou a revelação. No caso de uma digital, no máximo teria nos enviado por e-mail.
A simplicidade foi tão encantadora que a ouvinte nos presenteou com um álbum de fotos e quando nos viu abriu um sorriso e disse: "As fotos ficaram lindas. São até COLORIDAS!"

Pequenos detalhes muitas vezes são desconsiderados. A rapidez dos avanços tecnológicos faz com que não valorizemos a evolução do "preto e branco", por exemplo.
Nessas horas a gente percebe que precisamos de tão pouco para sermos felizes. A felicidade está nas coisas que passam imperceptíveis. Precisamos desenvolver a sensibilidade capaz de ostentar a simplicidade.

domingo, 25 de outubro de 2009

Ajude a Ajudar!


Há quem diga, que a felicidade é utópica. Nossa vida, tem momentos de alegrias, mas nunca somos felizes em plenitude. Pensar em felicidade é projetar-se ao futuro inatingível, porém que dá sentido à vida.
Hoje, assistindo TV, chamou-me atenção as crianças atendidas pela AACD, transmitido pelo SBT. Lindas histórias. Belíssimos sorrisos. Não só belos, mas principalmente, sinceros.
Mães que lutam pelo progresso e desenvolvimento dos filhos. Pais que orgulham-se ao ver a evolução das crianças. E telespectadores como eu, incapazes de conter as lágrimas.

Mais que um programa beneficente, proporciona a quem assiste um momento de reflexão, recheado de exemplos, que devem ser considerados em nossa caminhada.
Fernandinho, um garotinho animado, carismático, esbanjando alegria inspira a arte de viver. Embora sentando numa cadeira de rodas, com movimentos restritos e com atrasado desenvolvimento, Fernando sensibiliza pela garra, força de vontade, entusiasmo e ânsia pela vida. Depois do nascimento, o garoto ficou hospitalizado por dois anos, durante os quais alimentava-se através de sonda. Passou a ser atendido pela AACD e com os tratamentos, a sonda tornou-se inútil. Fernandinho saboreia os alimentos e diz que a partir de então tornou-se “feliz”. Pois é, para este belo exemplo, a utopia da felicidade é inexistente.

A AACD deu um novo sentido a vida desta criança e poderia dar um novo valor a nossa. Sílvio Santos, ícone da televisão brasileira, ressaltou que “o valor que está dentro de nós é o de mudar o rumo da história”. A mudança só se consolida quando estamos de coração aberto para ajudar. O que temos feito pelos nossos semelhantes?

“Ajude a ser ajudado!” - Teleton 2009

Para doar: 5 reais – 0500 12345 05 / 10 reais – 0500 12345 10 – Já fiz a minha doação!

Imprensa: A informação não fiscalizada


A imprensa, segundo nosso presidente deve informar. Claro, afinal, a informação é direito da nação, o acesso à ela é o que garante nossa democracia. A informação de qualidade é o que preza um Jornalismo ético e de qualidade. E é nesta vertente que acredito e esforço-me em elucidar.
Porém, Lula comete um grave equívoco ao negar o papel fiscalizador das mídias. Dines acerta ao afirmar que “informar e fiscalizar são ações sequenciais, partes do mesmo processo. Ao informar, fiscaliza-se, ao fiscalizar, informa-se. Proibir uma liquida a outra.”
Investigar é função da imprensa, é a prestação de serviço à sociedade, o que dá nobreza aos jornais e aos jornalistas.
Luiz Inácio Lula da Silva, “desatento para a esquizofrênica contradição”, com certeza “já se beneficiou como cidadão, político e sindicalista desse papel fiscalizador dos jornalistas”, como bem lembrado por Sérgio Murillo Andrade. Antes beneficiado, hoje censura o benefício aos seus iguais. Da fiscalização do tempo de oposição, Lula e seu partido cederam ao gozo do poder.
Informação, investigação e fiscalização estruturam o tripé que sustenta, ou pelo menos deveria sustentar, o Jornalismo. São estas três características que dão sentido a existência da imprensa. São elas que reforçam a importância de uma mídia transparência. Sem elas, teríamos que nos contentar com muito pouco. Seríamos obrigados a nos conformar com o “poder fiscalizador do TCU”.

Metaforicamente falando...


Adoro as metáforas. Lula também as aprecia. Nem sempre são felizes, nem sempre bem empregadas. Aos ouvidos repercutem como frases impactantes. Dizer que, caso Jesus viesse para cá, faria um coalização com Judas, de fato, como disse Verzigansse, representa a concepção que o público tem da política. Quantas vezes associamos políticos a atos ilícitos, corrupção ou impunidade? Quantas vezes repudiamos a política? Muitas vezes não nos interessamos, ou pior, nos conformamos com sua face obscura. Felizmente, vale lembrar que “a gente não deve acreditar que o grupo pode ser explicado pelos tropeços individuais”.
Mesmo desanimados, suportamos muitos canalhas em cargos importantes. O condenável não é suportar, mas sim aceitar. Lula se considera acima do bem e do mal, e o inacreditável é que mais de 80% da população brasileira aceita isso. Ou ainda pior, acredita neste absurdo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009



Pessoal, este é um trabalho que fiz para a faculdade, na Disciplina de Criatividade em Jornalismo. O tema era a censura na ditadura. Fiz um áudio, uma viagem àquela época, músicas censuradas e todo um histórico do período. Infelizmente o áudio não tem alta qualidade, por falta de recursos mais profissionais.

Espero que gostem e se envolvam nesta viagem!!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A conformidade do inconformismo

Fazia tempo. Muito tempo. Não lembro-me quando foi a última vez, para ser sincera.
Virou rotina. Simplesmente estava acostumada. Espanto? Por incrível que parece não. Decepção? Também não, me adaptei com elas. Falta de sensibilidade? Ausência de humanismo? O individualismo feroz da sociedade? Definitivamente, não encontro uma justificativa. As vezes me culpo. Faço um auto-julgamento. No entanto, no outro dia, a indiferença é a mesma.
Ontem isso mudou. Bem cedinho, lendo a Folha de S. Paulo fiquei intacta. Aquela fotografia despertou-me para um mundo adormecido. Adormecido num sono turbulento, regido por pesadelos. Não se vê a hora de acordar deste sonho, mas o aconchego de nossa cama é tentador. Não fazemos nada para despertar. Nem podemos.

Apesar de não ter “nascido há dez mil atrás”, já vi muita coisa neste mundo. Vi um metalúrgico tornar-se presidente do Brasil e um negro assumir a presidência norte-americana. Assisti a Seleção Brasileira ser Pentacampeã, e perder o Hexa enquanto um jogador arrumava a meia.
Presenciei desperdício de comida, enquanto outro passavam fome. Já vi quartos de hospitais confortáveis, contrastando com acomodações do SUS, que se quer têm roupa de cama. Li no jornal que namorado matou namorada. Assisti na TV que filho assassinou os pais. E pai jogou filha pela janela. Vi bandidos guerreando com polícia e também com outros bandidos. Até polícia em luta contra polícia, eu já vi. Pasmem! Fui surpreendida com traficantes mirando um helicóptero policial. Em 18 anos quantas coisas vivi, presenciei... Em muitas me calei. Estamos condenados ao conformismo.
Neste mundo globalizado, recebemos tantas informações e tudo tão rápido, que fica difícil digerir. Além disso, nos alienamos perante as mazelas da sociedade. Tudo é visto no conforto do lar. Somos informados, captamos a mensagem, mas não agimos como fruidor, atuando ativamente na sociedade. Pelo contrário, adotamos a passividade.
Fiquei inconformada comigo mesma. Como pude fechar os olhos. Encarar como se tudo tivesse bem. Sediar a Copa ou as Olimpíadas não atesta qualidade de vida da população. Uma cadeira na ONU não é atestado de um povo provido de educação de qualidade. Índices apontando 85% de aprovação de um presidente, infelizmente não elucidam uma política transparante.

Ontem, ao ver na capa de um jornal um “corpo” dentro de uma carrinho de supermercado, tive uma grande decepção. Que mundo é este que vivemos? Ah, era traficante, me disseram. Antes de ser traficante, ele foi filho, quem sabe pai. Toda vida tem seu valor. Não podemos aceitar a mercantilização da vida, na qual uma vale mais que a outra. Na condição de ser humano, todos somos iguais, providos dos mesmos direitos, regidos por valores, metas e um sentido vital.
Despertei para o mundo egoísta, frio, individualista. Que mundo é esse? Por que nos conformamos com algo totalmente inconformável?

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Amazônia: uma oportunidade única

Sempre sonhei em conhecer a Europa, estar ao lado da Estátua da Liberdade, novamente encontrar o Mickey, ver de perto a grandiosa Muralha da China. Muitos sonhos. Muitos lugares para explorar. Ah, como é bom viajar...
No Brasil, tive oportunidade de conhecer várias regiões, e curiosamente, nunca pensei em ir para o local que abriga a maior riqueza nacional. O lugar com extensa diversidade, agregada a beleza natural de um floreta. Jamais passou por meus pensamentos conhecer a Amazônia. Contraditoriamente, estou com viagem marcada para a maior Floresta do Mundo. E confesso, não poderia estar mais animada,

Hotel cinco estrelas? Três refeições inclusas? Traslado a cada hora? Passeios turísticos pelos pontos mais belos da região? Nada disso. Acomodação será em um barco, as noites de sono serão em redes. As refeições, nós iremos prepará-las. Mais do que passeios, vamos estudar a região, realizar pesquisas de campo e analisar as probabilidades de aplicação de políticas públicas. O transporte é através do rio. Nada mais perfeito. Nada mas propício para assimilar aquela realidade.
Vamos desconsiderar o tempo do relógio, conduzidos pelo tempo da natureza. Vamos abdicar de nossa ideologias capitalistas e conhecer aquela extensa diversidade cultural, os princípios que rege aquelas comunidades. Levaremos técnicas, estudos afim de melhor a qualidade de vida do homem amazonense, com a certeza de que receberemos em troca toda experiência e sabedoria daqueles que primeiro habitaram nossa nação e resistiram à colonização.

O Projeto é aplicado na reserva do Tupé, com pesquisadores multidisciplinares, que incentivam, dentro do Biotupé, o efeito multiplicador para disseminação do conhecimento e das políticas públicas. Com oito anos de trabalho, muitas pesquisas realizadas e muitas práticas desenvolvidas, entre elas as que privilegiam a geração de renda como “Tanque rede”, o Projeto Biotupé está em sua terceira etapa. Há apoio do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Ministério do Meio Ambiente, além de uma parceria com a Puc-Campinas.

Muitas organizações desenvolvem projetos na região amazônica, com propostas formatadas, que na maioria das vezes não correspondem a realidade da região. As prioridades daquela população são outras, os desafios são diferentes e as condições mínimas também. Dependem do transporte através do rio, sendo necessário considerar os tempos de cheia e seca. Além do mais, a energia elétrica é luxo nas comunidades, com cotas restritas e forte dependência do diesel, altamente poluidor. Além do mais falamos de uma comunidade isolada, de defícil acesso.
Mais que impor projetos, há necessidade de ouvir as pessoas, entender o que realmente precisam e só então propor práticas. Para isso, é de suma importância ver com os “próprios olhos”, “sentir na pele”, o dia-dia dos habitantes.

O lema do Projeto Biotupé é levar às pessoas, aquilo que já é delas. É uma espécie de orientação. Nesta terceira fase, há analise das políticas públicas desenvolvidas, o que deu certo e o que ainda pode melhor. A atuação tem o viés de disseminar o conhecimento e preservar toda biodiversidade amazonense.
A novidade é que a parceria com a Universidade levará alunos de diversos cursos à região onde, além de fiscalizar projetos em andamento, terão oportunidade de desenvolver proposta dentro de sua área de formação. No meu caso, estamos com projeto de realizar um documentário. Já conseguimos cinegrafistas, temos uma pré-pauta e uma boa expectativa de colher extenso material.

As coisas na vida acontecem inesperadamente e curiosamente. Meu interesse pelo estado do Amazonas surgiu em uma palestra com Roberto Godoy, editor especial do Estadão. Godoy enfatizou o mercado de trabalho pouco explorado, na área jornalística, da Amazônia, as possibilidades que a região oferece aos jornalistas, o que me chamou atenção. E ai, entram as coincidências. Na hora de escolher uma Prática da Formação (atividade realizada pela Puc) havia vagas para “Desenvolvimento e Sustentabilidade da Amazônia Central” . Resolvi arriscar.

O Projeto é bastante promissor e já colhe resultados. Mas o mais fascinante é conhecer os moradores de lá. É o mundo da existência, no qual o respeito rege a ideia de preservação.
Conhecer é ouvir o que outro tem a dizer. Alguns depoimentos apresentados em nossas reuniões, traduzem sonoramente, o que o morador da Amazônia sente emocionalmente. Frases como “Gostaria de voltar para nossa moloca, mas tenho medo”, chocam-nos, pois relatam a crueldade dos “brancos” ao dominar a região. Dizeres como “Se dependesse de mim mudaria para bem longe dos 'brancos'”, confirmam a agressividade dos dominadores.
Do outro lado, temos especialistas que assumem que “índios estão num parque zoológico para serem observados”, mas nada propõem para mudar a situação. Os indígenas de lá têm a consciencia de serem “os donos dali”, afinal, como dizem “nós nascemos ali”, porém se submetem à exploração, temem os “invasores”.
É interessante ver a imagem que o povo amazonense tem da terra: “Se não temos a terra, não temos condições de comer”. Na sociedade do consumo, a terra traduz-se em posse, poder.
Outro ponto que me chamou atenção, foi a força, a garra e o reconhecimento das mulheres dentro das comunidades. Uma amazonas chega encarar um grande empreendedor, e com um olhar de desprezo e indignação, acerta nas palavras:”Suas mães não carregaram vocês o suficiente.”
Para eles, “floresta é simplesmente vida” e em suas orações, a única coisa que pedem, ajoelhados, perante uma árvore é que “Deus lhe conserve sempre plantada em sua casa celestial.”

A ideia é levar conhecimento e técnicas ao povo amazonense, porém não há dúvida de que ,quem tem muito aprender somos nós, viajantes universitários da metrópole.